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O tucano

 

 

Ercília Macedo-Eckel
Para O corvo, de Edgar Allan Poe.

 
 

          29 de outubro, 2006. Segundo turno das eleições. Por volta das 22 horas eu refletia sobre as doutrinas de Estela, em cartilhas de outro tempo. Também ria do ocorrido no segundo piso do Lyceu de Goiânia, quando fui votar pela manhã e procurava Eunice, minha irmã. No final do corredor, 27ª seção, vi um cidadão de camisa de malha vermelha, carnes fartas, dentes afastados e ligeiramente enferrujados. Falei-lhe: Não vou dizer com quem o senhor se parece, porque o senhor não vai gostar. Puxei pelo braço a deputada federal Neyde Aparecida, que o acompanhava, e confidenciei-lhe: Ele se parece com Delúbio Soares, o ex-tesoureiro nacional do PT. __ É o próprio. Ela me respondeu. Nessa saia justa, dei um curto passo para trás e exclamei: Viche! __ Forma deteriorada de Virgem (Maria)! Para um homem deteriorado. Delúbio sorriu-me marotamente, de longe. Seu sorriso sem constrangimento era aquele mesmo, conhecido da tevê e revistas semanais.
          Exausta dos jornais de apuração do dia, dos bate-papos políticos, embora quase dormindo, resolvi seguir para a biblioteca e abrir a tela do computador. De repente tive a impressão de que havia alguém batendo de leve à minha porta.
          __ Quem bate? Não sabe que quando venho para os livros e papéis, não gosto de ser perturbada?
          __ Sim, eu sei. É só isso e nada mais?
          Chovia fortemente e minhas esperanças em dignidade e ética agonizavam com as águas que escorriam na vidraça e formavam sombras de fantasmas. Tais espectros tinham dentes de vampiro e de suas mãos pendiam malas transbordantes de sem-vergonhice. Sentia-me arrasada. Em vão clicar www.tucano.com.br __ a fim de buscar algum consolo e de suportar essa Estela cuja mãe nascera analfabeta. Minha mãe e a mãe de todos vocês nasceram lendo, escrevendo e falando inglês. Não é verdade? Ou é um exagero fantástico de desigualdade social __ da Zelite? Oh! que saudade daquela que nos céus do passado brilhava e a chamavam Autêntica Estrela __ e que daqui, do cerrado estéril, não se pode reconhecê-la mais.
          A bandeira rubra da atual Estela ainda arfava em minhas retinas, arrepiando-me e evocando medos antigos. Meu coração saltava na boca e eu sentia na língua o pavor da arritmia. Tentei acalmar-me: Quem bate à porta da biblioteca nesta noite chuvosa deve ser uma vizinha ou vizinho que chega tarde para me ver. É só isso e nada mais.
          Levantei-me mais calma e falei:
          __ Perdoe-me, amiga ou amigo, se fiz você esperar muito tempo. É que eu estava absorta na digitalização de textos engavetados e cheios de pó, que mal ouvi a batida à porta. Por acaso é você, Helena? Geraldinho, Geraldinho!
          Um grande silêncio e nada mais.
          Volto a digitar encabulada e logo ouço um barulho como o do vento agitando a vidraça. Abro a janela para averiguação. E o que vejo entrando fidalguescamente? Um tucano de plumagem brilhante: amarela, azul, branca, preta. Vermelha não. Transformara-se em espectro da noite, talvez egresso do sudeste brasileiro, fugitivo de alguma tempestade ou da intervenção dos poderes divinos. Adeja elegantemente e pousa sobre minha impressora a lêiser. E chalra: Onde está o dinheiro? De onde veio o dinheiro? Ninguém sabe, ninguém viu. Foi dito: Todo esse dinheiro que desce com a enxurrada ou pelo esgoto negro e miserável só existe no imaginário da Zelite rica e branca.
          Sem se importar com meu espanto, o tucano continua na impressora empoleirado e nada mais.
          Ave fidalga mas sem crista sempre me desperta comoção. Ó tucano, majestoso e singular, mostre a todos a agressividade e o poder de seu bico. Qual é seu nome, lindo tucano? Qual é seu nome na vergonha desses ilícitos? E o tucano responde: Nunca mais.
          Estranhou-me que falasse essa ave, da qual só se ouvira o chalrar e que seria impossível imaginá-la chamar-se “Nunca mais”.
          Aguardo, ao raiar o dia, as manchetes com o resultado estampado no sorriso de Estela. E prevejo o vôo espetacular desse Ranfastídeo, rompendo o silêncio com o grito: De onde veio o dinheiro? De onde veio o dinheiro? É só isso que ele diz? Com que intenção bate ele na mesma tecla seu grande bico de palavras sempre iguais? Uma tortura para meus ouvidos: Não sei de nada. Nunca mais.
          E eu, bem nutrida e muda, cismava com Estela. Tão trabalhadeira! Fazia deduções sobre seu manto estrelado abraçando o mundo, ao som dos arranjos eletrônicos de Walter Carlos, em Ode à Alegria de Schiller, integrada ao 4º movimento da 9ª sinfonia de Beethoven. Mas por que Ode à Alegria? Porque cada ouvinte-cidadão poderá tornar-se um exemplo heróico de honestidade, dignidade e amor. E esquecer a marcha ensaiada, dias antes, para o funeral da rainha Corrupção, juntamente com seus articuladores. Estela entraria em órbita com poderes utópicos sobre a América do Sul e com o brilho dA laranja mecânica. Eu disse laranja? Deixe Estela trabalhar!
          E o tucano respondeu: Nunca mais.
          O finale, com a multidão de mãos dadas em torno de Estela, seria uma cantata, sob a batuta de Karajan, __ buscando diálogo com movimentos anteriores e que conduziriam à descoberta da Alegria. As primeiras palavras de Estela seriam repetidas ou imediatamente assumidas pelo coro dos companheiros. Na explosão final da Ode haveria um sussurro: Até quando durarão as asas suaves dessa Alegria?
          E o tucano responderia: Até quando... Nunca mais!
          As cores da vitória e da Alegria foram apenas adiadas. Mísero tucano __ exclamo __ Enfim você não percebeu que Estela bebeu cauim boliviano e dos antigos projetos só deixou saudade? Civilização e fineza já se foram. Agora somos adeptos do canibalismo, da subversão de valores, do direito de mentir e do subseqüente esquecimento. E quem não quer ver publicado o que realmente aconteceu, ouviu do tucano o seguinte: Silenciar a imprensa, intimidar e constranger repórteres: Nunca mais.
          Profeta! __ eu grito __ Ó ser de grande bico, lindas cores e elegante porte __ você tem que chalrar. Botou o ovo? Tem que cantar, fazer barulho. Comeu algum filhote de urubu? Tem que cantar, exibir seu papo cheio de podres poderes. Utilize sua garganta para anunciar a colheita e também os espectros do mal.
          Responda-me, em verdade, elegante ave: Existe alegria maior no Brasil do que barriga cheia? E o tucano disse: Fome aqui __ Nunca mais.
          Profeta! __ exclamo __ Por Deus, por mim e pelos habitantes dessa terra, diga-me se o Paraíso está próximo. Se Estela ainda está em órbita, trabalhando, e com poderes sobre a América do Sul. Se chama todos para conversar __ pobres e oprimidos __ rumo à fraternidade universal. Estela estrela tão brilhante! E o tucano respondeu: Nunca mais.
          Então me despeço. Grito com a alma desesperançada: Volte para a Mata Atlântica que ainda resta, ó tucano negativista. Sua resistência difere da oposição voluntária. Não quero uma pluma colorida sua para lembrar-me dessa mentira que se tornou verdade. Quero ficar só, neste final de outubro/2006. Agora voe daqui, saia de cima de minha impressora. Retire o enorme bico que me crava no peito e me despedaça o coração. E o tucano retrucou: Nunca mais!
          E ficou ali plantado, elegantemente emplumado. Ainda hoje o vejo lá, ao lado do computador, com aquele olhar pidão, de anjo bom. De vez em quando dorme. Sua sombra se alonga pelo chão como se viesse me cobrir toda, até a alma. Não quero me prender à sombra desse tucano: Saia de mim! E ele respondeu:
          Sou seu negativo e seu duplo mutante. Não a deixarei, ai! Nunca mais!


Ercília Macedo-Eckel é membro da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás, sócia da União Brasileira de Escritores – GO e da Academia Petropolitana de Letras – RJ. Mestra em Letras pela UFG.

 
          Próximo livro: Os portais da viagem. Com textos já publicados em periódicos ou na internet, e outros inéditos, como:


 

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